1 de fevereiro de 2013

Les Misérables: o clássico nunca morre


Ganhador de três Globos de Ouro e indicado a oito categorias do Oscar, Os Miseráveis mais uma vez marca a história


Baseado em uma das principais obras da literatura mundial, Os Miseráveis (Les Misérables) chama a atenção pela certeza de um roteiro rico e profundo, justamente por não ser exatamente um roteiro original. Escrito pelo francês Victor Hugo e publicado em 1862, o livro, que deu origem ao filme de 2012 e também várias outras releituras, aborda temas como a miséria da sociedade francesa, exemplificada pelo desemprego, pela fome, por grandes crises econômicas, lutas de classes, desigualdade social e outros fatores marcantes de um país rico para alguns, e terrivelmente pobre para a grande maioria.

Antes de ir ao cinema assistir a essa nova versão do clássico, decidi pegar meu livro de história do ensino medio para ter uma noção do panorama socioeconômico da população francesa da época (séculos XVIII e XIX). Então vamos ao que eu reaprendi!

No reinado de Luís XIV, a França viveu uma reorganização política, econômica e social. O monarca remodelou a economia possibilitando privilégios comerciais aos burgueses. Os nobres foram mantidos no Palácio de Versalhes, vivendo de renda paga pelo monarca. Para os camponeses, o sistema feudal ainda vigorava e com ele, a servidão de grande parte da população, que era vigiada pelas leis e os dogmas feudais.

Para melhorar a ordem da sociedade, foram definidas três camadas bem divididas: o Primeiro Estado era o clero (alto e baixo), o Segundo Estado era a nobreza, e o Terceiro Estado era representado pelo povo (alta burguesia, camponeses, artesãos, entre outros). Enquanto os primeiros grupos gozavam de diversos privilégios (como não pagar impostos) e vivam com muito luxo, gula e requinte, restava ao terceiro estado suportar toda a carga tributaria que sustentava clero, realeza e nobreza. Mas as diferenças não paravam por aí.

As manufaturas cresceram em Paris, aumentando a desigualdade social inclusive dentro o terceiro estado. Enquanto comerciantes e burgueses podiam levar vida digna, apesar de difícil, o número de miseráveis e crianças abandonadas sofreu um crescimento expressivo, por causa da falta de emprego e da miséria social.

Para mudar esse cenário, foram reavaliadas as bases jurídica do Antigo Testamento, agora montado sob influência do pensamento iluminista, representado por Voltaire, Diderot, Montesquieu, John Locke, Immanuel Kant e vários outros filósofos que estudamos no segundo ano. Eles forneceram ideais para criticar as estruturas politicas e sociais absolutistas e sugeriram um governo liberal burguês. A insatisfação social era tão grave que o povo foi às ruas com o objetivo de tomar o poder e arrancar do governo a monarquia comandada pelo rei Luis XVI, que já não agradava também a nobreza domesticada no Palácio. O primeiro alvo dos revolucionários foi a Bastilha (uma prisão símbolo da monarquia francesa). A Queda da Bastilha, em 14 de Julho de 1789, marcou o início do processo revolucionário francês. 

Depois de passar por várias repúblicas, uma ditadura, uma monarquia constitucional e dois impérios (inclusive o Napoleônico), a França continuava a lutar pelos ideias de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Os detalhes de transição entre cada formato de governo são muitos, e vocês já devem estar se perguntando onde entra o romance de Victor Hugo nessa aula toda. O que posso dizer é que nada foi bonito. O país passou por muitas revoltas, movimentos agressivos, desenvolvimento econômico, atraso econômico também e muitas, muitas batalhas.

Pois bem, a história Os Miseráveis passa-se já na França do século XIX e é dividida em duas partes, entre duas grandes batalhas: a Batalha de Waterloo de 1815 e os motins de junho de 1832. Logo nos primeiros momentos do longa, conhecemos o famoso Jean Valjean (Hugh Jackman), quando ele rouba um pão para alimentar a irmã mais nova e os filhos, crime pelo qual é preso. Dezenove anos depois, ao ser solto, acaba violando a condicional e passa a ser um foragido. No entanto, ele tenta recomeçar a vida e se redimir.  Torna-se então um grande empresário, idolatrado pelo povo dos arredores de Paris, e consegue se eleger prefeito. Bondoso, honrado e caridoso, é dono de uma fábrica onde trabalha Fantine (Anne Hathaway).

Fantine enfrenta uma grande luta para sustentar a filha Cosette (uma doce e pura Isabelle Allen). Depois de ser abandonada pelo pai da menina, ela decide partir para Paris, onde espera encontrar emprego. Para tal, ela deixa a filha numa cidade do interior, com o casal Thénardier (os ótimos e até mesmo cômicos Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen), donos de uma estalagem, aproveitadores, golpistas e ladrões. Fantine não sabe, mas o casal explorador que maltrata a criança e a faz de escrava. Todos os meses manda dinheiro para eles, que cobram cada vez mais e mais para criar a menina.


Por infelicidade do destino, Fantine é colega de trabalho de um grande grupo de operárias hipócritas, que ao descobrirem sobre a filha ilegítima, denunciam a moça aos patrões. O responsável pelo pessoal da fábrica demite Fantine que, sem o emprego, não terá meios de sustentar Cossete. A jovem acaba caindo na desgraça de tantas mulheres que enfrentam a falta de dinheiro e emprego: a prostituição. É numa das mais sujas cenas do filme que ela se mete com as pessoas erradas, para quem vende os cabelos e alguns dentes, antes de se deitar por dinheiro. Em uma das sequências mais emocionantes da história, Fantine sucumbe à posição mais podre da sociedade, e então nos presenteia com a performance da canção I Dreamed a Dream, feita famosa em 2009 pela inusitada Susan Boyle. A gordinha tem, sem dúvida, uma voz mais poderosa e aperfeiçoada que a de Anne Hathaway, mas a atriz interpreta o momento com maestria de arrepiar até os ossos. Peguei o meu lencinho nessa parte.


Simultaneamente, Jean Valjean, que agora é conhecido como o Monsenhor Prefeito, chama a atenção do inspetor Javert (Russell Crowe), que o conheceu anos antes, quando trabalhava na prisão. Mesmo sem ter certeza sobre a verdadeira identidade de Jean Valjean, Javert se torna um desconfiado inimigo, pronto e perseguir o empresário.

Quando Fantine é agredida e quase presa em uma de suas tristes noites de trabalho, Jean Valjean interfere em sua prisão e então descobre que a pobre moça tem uma filha que precisa dela, e que fora despedida de sua fábrica dias antes. Para consertar esse dano, Valjean acolhe Fantine e promete trazer Cossete para perto. Antes que a filha chegue ao encontro da mãe, o público descobre que ela tem tuberculose e está a beira da morte. Destino curto demais para a atriz que tantos sacrifícios fez por essa personagem. Anne não continua no longa, e faz falta.


Ao ajudar Fantine, Jean Valjean se compromete e cuidar de Cossete para sempre, e o faz. Vai até a pequena cidade onde a menina mora com o casal Thénardier. Ao constatar os óbvios maus tratos que a garota sofre, paga 1500 francos para tirá-la dali, e criá-la como própria filha.

Nove anos se passam e somos levados a mais um período de revoltas, as barricadas da Revolta de 1830. O ano é 1832, e são apresentados os personagens dessa segunda fase de história. Jean Valjean e uma crescida Cossete (Amanda Seyfried) vivem confortavelmente em Paris. Escondido e com outro nome, Valjean não pretende atrair atenção para si. Mas seria um pouco difícil que o jovem Marius (Eddie Redmayne) não se encantasse pela beleza de Cossete.


Marius é um jovem rico que, diferente do avô, ainda acredita em lutar pela liberdade, igualdade e fraternidade. Ele se envolve com os Amigos do ABC, um grupo de estudantes revolucionários liderados por Enjolras (Aaron Tveit), que pretendem se rebelar contra a monarquia de um novo rei, Carlos X. Ele passa a morar num cortiço onde também mora a agora pobre família Thénardiers. Éponine (Samantha Barks), filha do casal que maltratava Cossete, é apaixonada pelo belo rapaz.

Com a morte do General Lamarque, um ídolo da Revolução, começa um clima de agitação em Paris, que prepara-se para uma insurreição. No dia 5 de junho de 1832, durante o funeral em frente à Ponte de Austerlitz, estoura a revolta, que conta com operários, estudantes e pobres. Erguem-se barricadas nas ruas estreitas da cidade. O pequeno Gavroche se junta ao revoltosos comandado por Enjolras e Marius. O grupo ergue uma barricada na rua La Chanvrerie.


O “segundo ato” estimula o espectador e experimentar o gostinho de uma revolta, o desejo de lutar e se libertar de um governo opressor. Diferente da primeira parte do longa, que explora o sentimentalismo forte dos personagens, a barricada e seus soldados cativam nosso coração a ponto de queremos cartar junto a eles o hino da revolta.

Ao longo das primeiras cenas de Os Miseráveis, você poderá dividir com o elenco um tipo de sofrimento que talvez seja novo para muitos de vocês, e uma dor que não se pode imaginar. As belas sequências mostram cada personagem no limite entre o vivo e o podre, agredidos pelo tempo e pela miséria. São vários closes fechados em suas figuras a cada solo cantado. É possível relevar todo o cenário a volta e sentir de verdade a emoção de cada um.

Dirigido por Tom Hooper, essa adaptação do musical da Broadway, por sua vez baseado no livro, apesar de maravilhoso para mim, não é um filme para qualquer público. Longo e quase totalmente cantado (são apenas alguns diálogos falados), pode ser cansativo para muita gente. Eu não achei. Eu gosto muito de musicais e me senti realmente tocada por esse filme. Estou obcecada com o assunto desde que saí da sala do cinema. Quero ler o livro! Me apaixonei por esses personagens, por suas histórias, suas lutas e suas infelicidades.

Não sei se vocês souberam, mas nenhum dos atores do elenco gravou as músicas em estúdio, foi tudo ao vivo, durante as gravações das cenas. Dizem que esse é o ponto mais forte do filme, pois é perceptível a forma como esses artistas se entregaram ao trabalho. Concordo, isso é muito bonito de se ver. Por mais que não sejam cantores profissionais, a coragem que esse elenco teve ao assumir tamanha responsabilidade é de deixar muita gente no chinelo. Saibam que não é fácil ouvir conversa atrás de conversa em forma de canção, numa representação nada fiel á realidade. Mas eu achei super fácil acompanhar o ritmo do filme, e o enredo em geral.

Posso ser a pessoa mais suspeita desse mundo para criticar Os Miseráveis, lançado para comemorar a versão do teatro. Amo musicais, amo história, amo filmes de época, de lutas, de guerra, de derrotas; e amo, mais do que tudo, uma bela história de amor e compaixão. Já fazia muito tempo que um filme não me proporcionava sentir tantas coisas ao mesmo tempo. E tantas coisas que eu nem sei explicar direito. A única coisa que posso dizer é que Os Miseráveis foi uma das experiências mais emocionantes que eu pude viver nos cinemas, um verdadeiro presente aos amantes da sétima arte.



7 comentários:

  1. Nossa Luísa, você se superou com essa crítica. Gente do Céu!! Fiquei completamente apaixonada e claro...mais empolgada ainda para assistir ao filme. (Talvez eu faça isso no sábado)

    Luísa, post maravilhoso muito bem escrito e com vários pontos bem legais sobre a visão da época em que o filme é passado.

    Amei mesmo! Parabéns!

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    1. Obrigada amiga! Fico muito, muito feliz que você tenha gostado! :D

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  2. Já tinha lido o livro e ver esse filme foi como reler, mas não fiquei muito impressionado e até um pouco decepcionado, cortaram partes importantes da trama e colocaram algumas músicas para explicar o que eles tinham cortado, e isso não é legal. Cansativo para quem não é fã de cinema e até quem ama se sente desconfortável com a demora para avançar na estória. Filme na média.

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    1. Oi, Eric tudo bem com você? Obrigada por ter comentado. xD

      Então, eu fiquei super feliz com o filme e correspondeu muito minhas expectativas na realidade para mim ele me surpreendeu muito!

      Até comentei na página do Coffee and Movies pelo facebook um certo "fato" que rolou no dia em que fui assistir (Hoje).

      Amei tudo mesmo. Luísa...mais uma vez ótima crítica!

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  3. É, eu avisei sobre isso na minha crítica: não é pra qualquer público. Eu sou como você Eric, mas quando se trata de outros assuntos, como a novela das oito haha Quero ação, quero resolução. Mas o engraçado é que, eu notei essa "enrolação" que você falou nesse filme, mas não me incomodei não. Achei tudo muito lindo. E também quero ler o livro, agora mais do que nunca!

    Obrigada pelo comentário! bjs

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  4. Eu QUERO MTOOOOOOOOO ver esse filme! KKKK Vou até com a minha mãe! \o/ E AMEI DEMAIS essa crítica! Esse filme tem vários atores que gosto mto, principalmente a Anne Hathaway que é praticamente minha atriz predileta! Enfim, já tenho certeza que vou AMAR! Parabéns Luísa, só me deixaste mais empolgada ainda em ver! *_*

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  5. Muito importante essa critica, agora posso ver o filme tranquilo que não vou ficar boiando. Obrigada por compartilhar conosco as curiosidades sobre o filme, achei muito interessante.
    Parabens pela ótima pesquisa e pelos ricos destalhes descrevendo a sociedade francesa.
    Obrigada

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