3 de abril de 2014

Eu ainda não sei nada



Ser adulto é um tanto quanto solitário. Mesmo que você tenha muitas pessoas a sua volta, aquela sensação de solidão sempre aparece. A solidão de perceber que tem coisas que você só pode contar com você mesmo.
Não que eu não tenho muitas pessoas para me ajudar, para estar ao meu lado. Mas quando somos mais novos, há a sensação de segurança. A sensação que alguém pode pegar na sua mão e resolver o problema para você. Quando você já assumiu algum controle da sua própria vida, já vê que nem é tão assim.
Sinto saudade da sensação de segurança. De acreditar de verdade quando minha mãe prometia que ia ficar tudo bem - mesmo que parecesse o fim do mundo. Hoje eu já sei que não é o fim do mundo, mas já não acredito mais. Algumas coisas nunca ficam bem - elas só passam.
Sinto falta das melhores amigas. Sabe aquelas meninas ou aquela menina com quem você podia contar tudo, passar horas conversando de noite? Hoje eu já não tenho nem tempo para isso, quanto mais a capacidade de confiar em alguém assim. Pois é, foi a inocência perdida que me jogou aqui.
Aprendi o que é dor de verdade não sentindo na minha pele, mas vendo - toda semana - no rosto de centenas de pessoas, ao mesmo tempo em que aprendi o quanto vida é preciosa - e o quanto tempo perdemos sofrendo, nos preocupando, o quanto eu - e tantos de nós - vivemos num bolha muito bem protegida. Ver a dor e o sofrimento tão de perto me mudou, está me mudando e não, não para pior. Talvez me dando mais determinação. Talvez me deixando mais frágil por dentro e forte por fora.
O que me dói é abrir mão do controle. Eu não consigo lidar que a vida é uma instável caixinhas de surpresas. Que por mais que a gente escreveu um roteirinho com as falas ensaiadas, a gente nunca usa elas. E quem sabe, podemos parar de escrevê-las e viver um dia de cada vez.
Estava conversando com duas amigas ontem. Fim de um dia com 10 horas seguidas de aula (meia hora de almoço), quatro delas passadas no hospital. Biblioteca, livros abertos (tanta, mais tanta coisa para ler) mas a conversa era sobre nossos amores. Os caras que a gente gostou. Os caras (estranhos ou não) que gostaram da gente. E rimos, rimos muito das histórias compartilhadas. Lembrei tão claramente de mim mesma, com 12, 14, 16 anos - as esperanças, os sonhos, os medos, as insegurança -  hoje rindo das mesmas histórias que me deixaram maluca há poucos anos. Mal sabia eu de qualquer coisa e eu achava que sabia tanto. Eu era inocente.
Hoje eu tenho certeza que não sei nada sobre a vida, o universo e o 42. Eu tinha tantos planos, eu lutei tanto e perdi muito, ganhei coisas que nunca esperava ganhar da maneira que aconteceu. Eu deixei tanta coisa para trás. Achei que sabia para onde estava indo, quem e o que eu estava levando, e vi que cheguei num lugar inesperado.
Nem tento mais fazer o roteiro. Não quero levar mais nada além de eu mesma. Não sei onde quero chegar. As vezes sinto que não sei o que estou fazendo da minha vida. Não faço questão de levar ninguém comigo, enquanto quiser permanecer ao meu lado, será bem vindo - mas aprendi a dizer adeus fácil demais.
Reconheço: vou rir de tudo quando for mais velha. Vou entender as coisas que não entendo. Vou aprender que nessa viagem da vida o melhor é viajar ainda mais leve e deixar todos esses pesos (medos e inseguranças) na beira da estrada. Eu e nem ninguém vai precisar deles.
As vezes eu ainda tenho vontade de me esconder. De precisar de um colo. De ser criança de novo. É a solidão. A solidão de saber que ninguém vai mais segurar minha mão para nada. Meus primeiros passos estão cheio de tropeços. Mas cada vez mais preciso caminhar por conta própria.
Porque, como não cansam de me lembrar: "uma noite, um paciente vai chegar, e a decisão é sua. Todas as outras pessoas vão responder a sua decisão. Você é o encarregado." E para isso vou precisar saber. Vou ter que confiar. Em ninguém além de mim mesma. Eu andando sozinha. Eu voando sozinha. Eu e mais ninguém. Solidão.

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